Sou a gota, O grão de areia, O espinho da roseira.
Sou a vogal, O agá mudo, O ponto sem final.
Sou o conto, A poesia, A página do jornal.
Sou apenas um pedaço Que passou despercebido Pelo crivo da censura.
Lilia Maria
Quem
lê esta poesia logo vai pensar: coitada, está deprimida... Mas analisa
comigo: uma gota pode fazer a água do copo entornar, o grão de areia
pode incomodar muito dentro de um sapato, o espinho da roseira pode até
machucar. A vogal... O resto, fica por conta do leitor...
Bendito é o fruto Que ofereço em devoção Aos lábios que beijo Com amor e paixão. Bendito é o fruto Que me oferece para provar, Cuja seiva me aplaca a sede, Mas ainda tenho fome a saciar. Seja feita a nossa vontade De dar e receber as dádivas Que nos fazem subir aos céus Em momentos de prazer. Prazer que acalma a alma, Que o corpo espera para descansar... Bendito seja em minha vida, Bendito seja em meu amor.
Lilia Maria
Quem me dera eu pudesse continuar orando com tanta devoção.
Era fogo,
Era pó,
Era amor de um só
Que o vento espalhou
Se perdeu no turbilhão
Que arrasou este quinhão.
Era semente sem dono,
Era vertente sem rio,
Era pedra que não edifica
Sem ter quem lavre
Cada aresta que ficou.
E a pedra bruta permanece
À espera do seu descobridor.