quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Olhares


Minhas vestes cobrem apenas a nudez,
A alma continua exposta.
Quem me vê com os olhos,
Enxerga o colorido das roupas,
Mas não a cor da emoção.
Quem me vê com o coração,
Percebe a palidez do silêncio
Que guardo não sem razão.

Lilia Maria

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Regras do jogo

Peça licença para entrar,
Mas só venha se for ficar.
Não tenho espaço
Para quem vem de passagem,
Não tenho paciência
Para quem não traz bagagem.
Prefiro a parceria do sonho
À uma promessa sem lastro.


Lilia Maria

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Não tenha medo

Meu amor parece um passarinho,
Tem medo de voar
E não saber voltar ao seu ninho.
Tem medo de trovão
E se esconde do barulho.
Tem medo do escuro
E se esconde na sombra.
Tem medo do alçapão
E se esconde na gaiola.
Calma lá amor-menino,
Velhice não tira a força das asas,
Só faz crescer a solidão.


Lilia Maria

Fotografia

A foto do porta-retrato
Não faz jus à imagem real,
Não tem profundidade
Nem conta sua história,
E vai ficando amarelecida.
A cor se esvai com a vida,
Mas deixa a saudade no tempo.


Lilia Maria

sábado, 12 de novembro de 2011

Momento


A beleza de um momento
Pode estar em um gesto,
Em uma palavra,
Em um simples olhar.
Pode ser apenas um lapso,
Segundos eternos,
Preciosos,
Arrebatadores,
Que são lembrados
Mesmo quando parecem esquecidos,
Deixados ao acaso,
Relegados ao segundo plano
Que sempre pode existir.
Não importa.
Basta saber que foi vivido.

Lilia Maria

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Pensando no ano novo

Ano novo,
Novos tempos,
A vida se renova.

Novos sonhos,
Novos projetos,
Novas paixões,
Grandes emoções...

E, se nada for novo...
De novo,
Faça o velho se renovar.
Ponha cores em velhas cores,
Dê lustro,
Espante a poeira,
Dê brilho!

Refaça caminhos,
Olhe por novos ângulos,
Recicle,
Releia,
Modifique regras antigas.
Faça adaptações!
Grandes, médias, pequenas,
Não importa!
O que conta é saborear a vida,
É curtir cada tantinho,
Ardorosamente,
Cuidadosamente,
Apaixonadamente,
Sempre e para sempre...

Lilia Maria


Escrita para saudar o ano de 2006, hoje minha amiga Rô Martins me fez resgatar este pensamento. Vale não só para um novo ano, mas para a vida.

Violino

O arco estava torto,
Parecia quase morto,
De tanto trabalhar,
Só queria descansar.

O breu quase acabado,
No canto da caixa jogado,
Só queria ser guardado,
Só queria sossegar.

Na estante a partitura,
Repousava semiaberta,
Guardava a tablatura,
Uma nova música, na certa.

E o pobre violino,
Que a ribalta acolheu,
Ficou sonhando com aplausos
Que a dona recebeu.

Lilia Maria

O violino em questão pertenceu à minha mãe e hoje é da minha filha. A história deste belo instrumento musical, que já está na família há mais de 60 anos, já foi postada no meu blog anterior, mas quero mais uma vez compartilhá-la. Eis:

Minha mãe, muito antes de se casar com o meu pai (lá se vão mais de 60 anos!) tinha paixão por música e em particular por violino. Meu avô, a custa de muito sacrifício, comprou um para ela, já de segunda mão, bastante usado e meio gasto, mas com um som lindo.
Quando ela começou a namorar meu pai, certamente por ciúmes, ou do professor, Maestro Serafim Batarsa, lá de São Carlos, ou da devoção que ela tinha pela música e o seu violino, conseguiu que ela largasse tudo. Claro que ele prometeu que depois de casada ela poderia, aqui em São Paulo, voltar a estudar. Provavelmente ele deve ter dito a ela que uma das primas era casada com o Maestro Francisco Casabona e que isto facilitaria conseguir um bom professor.
A promessa eu sei que foi feita, mas nunca cumprida, pelo menos não com relação ao violino. Um belo dia ele apareceu com um acordeão lindo e um professor à tiracolo. E a violinista acabou virando sanfoneira... Eu devia ter entre quatro e cinco anos na época.
O professor era um espanhol, Sr. Marcelino, conhecido como El Manito. Ele tinha vindo da Espanha não fazia muito tempo. Era sapateiro na Vila Madalena, se não me engano na Rua Girassol, e dava aulas de música à domicílio. Ele tinha um porção de filhas e um filho. O menino, que sempre o acompanhava, era um gênio musical. Volta e meia ele aparecia na TV, em programas infantis, tocando diversos instrumentos. Eu me lembro ainda do dia que ele estreou o saxofone na cozinha da minha casa (que era o lugar onde minha mãe tinha aula).
Anos depois, na época da Jovem Guarda, qual não foi a minha surpresa ao ver o filho do Sr. Marcelino, agora “batizado” com o apelido do pai, Manito, fazendo parte do conjunto “The Clevers” que depois se transformou em “Os Incríveis”.
Mas voltando ao violino, vi minha mãe tocá-lo uma única vez. A música era Berceuse de Brahms.
Acho que a minha filha mais velha, Luciana, herdou o gosto musical da avó. Desde muito pequena sempre pedia para aprender a tocar violino. Eu não consegui conciliar meu horário com as poucas escolas de música que ofereciam o curso.
Quando adolescente finalmente, por conta própria, ela procurou a escola e se inscreveu. A avó então, lhe deu de presente o famoso violino, agora já mais que centenário. Ele foi restaurado por um especialista que se encantou com a preciosidade.
Em 2002, quando aconteceu a primeira apresentação eu escrevi o poema, não sei se para ela ou para ele.